Solturas, Suspiros e Lindezas.

Ele estava sentando em um ponto cego da cafeteria. Talvez não desejasse ser visto ali, após sua decepção com a vida em um todo. Presente naquela crise existencial da incapacidade até mesmo de pensar. O lugar, lotado em seus dois andares com um aroma suave de liberdade, corria contra o tempo. Uma das novas atendentes, ainda constrangida com o atendimento ao público pedia perdão aos clientes, mesmo dentre ao vazio da razão.

O rapaz havia acabado de apanhar seu pedido, quando a moça passara por ele. Com o uniforme novo, mas um tanto desajeitado, e duas marcas de uma recente estadia no hospital. Seu pescoço, e seu braço esquerdo com pontos bem cirúrgicos, quase imperceptíveis, se não fossem por seu bronzeado atrasado em relação a pele morena da menina.

Encantado com sua aparência, pôs-se a observá-la, tentando relembrar quando havia visto esse rosto conhecido. Se havia algo que o fazia orgulhar-se era sua memória fotográfica.

Na subida das escadas, a familiar moça cantarolava a lábios cerrados “I’ve got you under my skin“, de Frank Sinatra. O acaso havia feito o jovem esquecer-se de seus problemas, pois instantaneamente relembrara quem era essa desconhecida.

dançando

Exatos 45 minutos se passaram com ela ao chão, caída, quase sem vida, com uma banda de rua ao fundo fazendo sua apresentação em homenagem a Sinatra. Ele, segurava-a desesperado, temendo que o pior lhe ocorresse. Não a conhecia, apenas, a vira sendo atropelada em meio ao caos da cidade grande. Assim que tudo acontecera, ele correra para salvá-la. Tentou de tudo para fazê-la recobrar a consciência, enquanto pessoas pasmas tentavam ligar para a emergência. Disse que era irmão dela, a fim de poder permanecer ali. Os olhos dela, pesados, derramavam pequenas gotículas, onde não alcançavam a posição de lágrimas, um casaco preto cobria seu torso, sua maquiagem encontrava-se misturada com pedaços de piche da calçada, e sangue de sua cabeça. Nenhum corte profundo estava visível. Passou-se um ano após a entrada dela na ambulância, nunca soubera em que hospital a frágil donzela se encontrava, nem se aquele braço havia recuperado-se da fratura exposta. Aquela cena seguiu o rapaz em todos os seus sonhos, deixando-o de certa forma constrangido por sua preocupação excessiva por uma moça sem nome.

Em suma, três coisas jamais foram a mesma desde então. Ele considerava-se um zero á esquerda, pois não pudera fazer nada de útil em meio a pressão. Também tornou-se conhecido como mentiroso. Os paramédicos o impediram de entrar, pois sabiam que sua história de ser parente sanguíneo, na verdade era uma furada. E por último, ele abandonou seus sonhos de ser um economista de sucesso, para se tornar um taxista. Era uma profissão digna, ainda lhe trazia seus benefícios, mas ele vivia só disso. Não via seus pais, e irmãos. Não pensava em constituir uma família, com medo de perdê-la. Seu apartamento tinha vários equipamentos de luxo ajuntando poeira. E por fim, em um quadro de vidro, construído especificamente para isso, havia um exemplar de livro, que caíra durante o acidente em suas mãos. Todo escrito em uma máquina de escrever, e ilustrado á mão, em uma das páginas havia o sangue da moça, e em outra sua assinatura, onde o moço conheceria seu nome, se tivesse coragem de abri-lo sem trazer à tona seu desespero.

E ela, encontrava-se tão perto, que em um súbito de medo, o moço começou a contar sua respiração. Apalpando dentro de si vocabulários que não o fizessem de bobo, procurava uma maneira de chamar sua atenção. Qual seria seu nome? Será que lembraria de algo relacionado àquele dia?

Envolta em pensamentos, a jovem desejava voltar no tempo. Não que fosse ingrata por sua vida até ali, mas todos os sonhos que tivera enquanto permaneceu em coma costumavam trazê-la a sensação de aventura. Sua vontade não era a de recomeçar a vida, nem de recuperar seu antigo emprego como produtora de programas infantis, ou de reencontrar seus antigos amigos. Ela queria algo novo, coisa que lhe fora dada através de todos aqueles 400 dias em que uma história de amor e carinho surgira em seu coração. Ela ainda se  acostumava com o movimento de seu braço, portanto a limpeza das mesas lhe eram desafios. Os pedidos eram feitos, um após o outro, as chegadas, e partidas. Aquele dia de inverno rigoroso que aumentavam as vendas e consequentemente, sua comissão. Mas nada disso substituía sua vontade de sair desse casulo de compromissos vazios. Sozinha, em uma casa que comprara com a herança de seu pai, sonhava em reescrever seu livro perdido. Sabia que em algum momento da vida aquele título poderia reaparecer, ou talvez ser devolvido a ela. Com as adaptações necessárias, aquela seria uma boa história para ser contada através dos filhos e netos. Não necessariamente mantida em se original, mas reavivada por pequeninos detalhes que fariam a diferença em um todo. Tinha saudades de sua família, mas por tudo o que ouviu dos médicos após sua recuperação, resolveu que esperaria a adrenalina passar. Um pequeno traumatismo craniano gerou-se da queda em seu atropelamento. Uma fratura exposta, e um cérebro inconsciente por meses intermináveis. E um descaso total por parte de seus familiares, que se preocupavam mais com sua estética do que com sua saúde, pois fora o que lhe chegou como informação.

Chegou portanto com mais uma bandeja, coberta por restos de clientes que gastavam dinheiro, para não comer. Mas como seu expediente estava findando, lentamente tirou o avental, e desprendeu seu cabelo. Olhou para a pilha de trabalho que encontrava-se na pia, e desejou animo para sua colega. Ao descer as escadas, a fim de pegar suas gorjetas, deparou-se com a sensação de estar sendo observada.

Em um canto, próximo as geladeiras de bebidas, ficava uma mesa, onde um rapaz solitário encontrava-se. Os olhares de ambos tocaram-se por instantes, e o coração da jovem disparou. Era ele, o seu Peter.

O jovem não podia acreditar que ela havia o visto. Parecia que realmente aquilo acontecera. Mas será que era ela?

Ela sorriu. Sabia que não poderia sufocá-lo com perguntas, afinal, não o conhecia verdadeiramente. Ele esteve presente em uma sequência de sonhos malucos, confundidos com anestesias e barulhos de hospital. No fim das contas, ele não poderia ser O Peter. Mas talvez, aquele encontro não fosse algo ocasional.

Ele levantou-se, jogou uma nota na mesa, como nos filmes americanos, e correu de encontro a moça que revirou sua vida.

Ela saiu pela porta da frente, algo que jamais fazia, e procurou no estacionamento algo familiar.

Um táxi. Um luar. Um olá disfarçado.

– Você está atrasado.

– Foi difícil te encontrar.

– Sou Emilly, prazer.

– Peter, muitíssimo prazer.

Em, estendeu sua mão, que fora abraçada por um beijo no dorso.

– Você… se lembra de mim?

Ambos perguntaram. Mas já era tarde demais.

A cafeteria, um livro perdido, e um casal enamorado, dançavam sob a luz do luar.

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