Contrapostos, contragostos .

Quando a sala de estar se encontra vazia, percebo ao canto, um sofá. As paredes eram  frágeis, assim como aquele pedaço de estruturado madeireiro com espuma.

Eu não via como o dia estava nublado, todos diziam que era a pior temporada do ano. Me deparei então com um sentido. Uma coisa insignificante como um sofá em pedaços, havia porventura sido um lugar de encontro de alegrias? Talvez sim, ou não.

Indícios de televisores, ou de qualquer outro aparelho de divertimento não se encontravam no local. Então como um objeto tão precário fora parar ali? E como ele ficara nesse estado?

Sentando-me nele, começo a alisá-lo com as mãos. Fechando os olhos, e sentindo a brisa fria do outono atingir minha face, sou atraída a um país de imaginações. Um chá da tarde talvez, derramado no sofá novo de uma condessa fora o primeiro manchado de um lugar que estava prestes a conquistar histórias. Ou um bombardeiro havia estilhaçado os móveis de uma viúva, que ao tentar salvar seu sofá  colocara um cobertor de plumas, onde eu me recostava naquele momento. Diversas imagens passavam em minha mente, tentando dar um significado a tudo aquilo. Recém casados, que tiveram filhos arteiros, que se dedicaram a pular e puxar todo o tecido do estofado. Cachorros, gatos, pássaros.

E cada vez mais, não encontrava saída nenhuma. Era como se tudo fosse um labirinto onde as paredes iriam formando ângulos, dos quais nem o engenheiro das saídas, pudesse controlar uma possível queda. Ramos se espalham sobre meus pés. Incertezas, esperanças, perspectivas, de que estávamos travando uma expectativa demasiada grande sobre aquele móvel.

Era como a minha vida.

Eu não sabia de onde eu arranjei tantas cicatrizes de batalha, onde minhas mãos foram estilhaçadas, onde meus sorrisos foram derramados. Eu via lágrimas, sentia dor. Meus ossos debatiam contra aquele frio. Minha’lma almejava respostas.

Desejava ser reparada, reconstituída, restaurada. Talvez, transformada em outro utilitário. Me vestir novamente, sair do estado de precaridade, e entrar novamente em uso.

Eu queria ser um lugar, onde todos se sentem confortáveis, e gostam de conversar. Depositam segredos, virtudes, desejos.

Útil como um sofá.

 

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