. Entrevistas .

Um dia sentei-me defronte ao espelho, e comecei a conversar com aquela criatura estranha. Ao arrumar o cabelo, percebi que possuía um tique no olho direito. Fora engraçado, e sorrindo, vi algo do lado esquerdo de sua face. Pés de galinha? Não tão cedo. Talvez um amadurecimento forjado de seu sistema muscular. Começo então acariciar aquela face estranha, e ver o porque disso, porque daquilo. O que cada verruga, espinha, cravos indicam. Cada mínimo detalhe da personalidade, dos gostos, das músicas, do ser intelectual daquela pessoa. O modo como cumprimenta as pessoas, como anda a passos largos, como chora ao se decepcionar. Os sentimentos que afloram aquela face lhe apontando o quanto é humana.

Me choco com a maneira que me encontro com ela. O Outro lado da moeda, me dizia o subconsciente. Afinal, quantas vezes eu já fiz isso mesmo? Talvez seja somente a primeira vez. Pensando bem, até que não estou me saindo tão mal. Só se passaram 15 minutos, e duas cenas percorreram minha mente. Porque eu sou assim mesmo? E a fotografia de meus pais, recém casados me percorrem a mente. Sim, tenho traços que realmente me definem quem eu sou. Como notei, os cantos mordiscados de minha boca, refletem minha ansiedade, meus medos, minhas angústias. Os olhos meio borrados, a maquiagem meio escorrida, apresentam uma falta de confiança, a desaprovação por parte dos demais. Os seus fones de ouvido caído aos ombros. E uma playlist que muitos julgariam como música de “prestes a morrer”.

Apertei meus olhos contra a imagem refletida, notei os olhos se movimentando, o cabelo rebelde do topo da cabeça. E outras cenas retornaram a minha mente. Meu primeiro dia de aula. Aquelas pequenas crianças sendo deixadas pelos seus pais na porta da escola. Uma cena se repetia em cada canto da sala, crianças chorando. Sentimento de abandono? Naquele momento era o MEDO do abandono. Ops, de encontro aos meus pensamentos, minha primeira melhor amiga. E a nossa primeira briga. Depois de tudo isso, talvez seja o reflexo errado de quem eu vejo. Talvez o espelho não revele quem eu realmente era, mas quem eu sou.

Minha mudança brusca de cidade. Meus amigos sendo deixados de lado, minha nova escola, ruim. Minha família que não me conhecia, e eu sendo recém apresentada a eles. A cidade totalmente confusa no contratempo. Sonhos sendo deixados de lado. E então, como fazer tudo voltar a ser melhor?

Notei ao redor desse espelho, fotos penduradas. Fotos que tirei, fotos que permaneci imóvel para que as tirassem. Vi meus sonhos grudados. Fotos de bateria, notas musicais, livros, e da minha maior saudade. Coisas, pedaços de reportagens sobre a Austrália. Aquela noite fria de julho onde eu me encontrei com o maior sonho da minha vida. Fotos de meus melhores amigos, trechos de músicas, minhas músicas. O sonho da máquina profissional, de ter um dom um pouquinho maior pra escrever tudo o que eu realmente quero sem me preocupar com o resultado, ter o meu ponto de vista. Sem manipulações, sem limitações.

Afinal, porque me aprisionei tanto? Modas, de roupas, livros, lugares, amores. E mais uma imagem me assusta no espelho. Eu estivera sonhando.

Quem eu realmente me tornei? No que perco meu tempo, e no que “acho” esse tempo? Quantas vezes falei sem pensar a palavra amor, quantas vezes chorei sem ouvir um adeus. Eu acho tolice guerrear pela paz. Porém nessa hora, se eu permanecer parada, e inconstante, jamais chegarei a um final. E sei que de qualquer forma algo me sustenta, dizendo que o fina será muito bom.

Você acreditaria? – Disse àquela estrangeira a minha frente. Acreditaria se tudo o que você fizesse a partir de hoje, começasse a impactar a vida de outras pessoas? Quantas histórias deixaram de ser contadas? Quantos abraços? Quantos sorrisos? Acorde! – E dando um tapa no espelho, adormeci.

 

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