. o verdadeiro .

Fixei meus olhos num ponto qualquer da platéia, estava muito nervosa. Por vezes ao se aproximar de mim, o maestro percebeu que eu estivera ansiosa. Mas permaneci constante, sabendo que o meu papel a ser desempenhado naquele momento estava estabelecido, eu tinha que ser tecnicamente perfeita. O que é particularmente complexo pra pessoas como eu, que possuem a breve facilidade de causar desastres publicamente devem se enquadrar num protótipo ideal ao início de qualquer celebração solene.

Infelizmente não pude evitar, ao dar o primeiro passo, a fim de conduzir a primeira música, tropecei nos cabos, e acabei por fazer um acorde desconhecido e sequer catalogado por Bach ou Mozart. Porém, para meu espanto, todos deram continuidade à música, sem olhar naquele montante de letras, acordes, e partituras às suas frontes.

Permaneci então, em estado de choque, ao perceber que eu, havia desencadeado uma avalanche de criatividade, e o mais engraçado: ninguém estava fora do tom, ninguém havia desafinado, ninguém. Tudo se encaixou perfeitamente, e a cada batida do meu coração, um ressoar de emoções e lembranças invadiram meu ser. Todos choravam, na platéia, no palco, naquele imenso “4 por 4” , onde um leve sorriso disputava seu lugar ali. O maestro, sem jeito algum de estabelecer o ritmo da canção, se sentou ao meu lado, e fizemos o dueto mais improvisado de nossas vidas. Talvez uma aberração aos expectadores, que liam seus cronogramas procurando o nome daquela canção, sem ao menos imaginar que ela jamais havia sido catalogada.

Eu via rostos, alguns com uma expressão de infantilidade, onde se remetiam a cada pausa, a mais um suspiro de saudades. Eu vi jovens, planejando seus futuros, eu via pessoas abraçando seus pais, outros pegavam seus celulares e procuravam o recurso de filmagem. Via com clareza, famílias planejando a próxima vinda ao teatro. Porém, ligado a tudo isso, vi uma criancinha. Um rosto puro, e muito gracioso, procurando uma posição de forma que pudesse avistar o tablado. Foi ali que eu despertei… Despertei em mim sentimentos jamais aproveitados, nos quais uma maré de alívio e sabedoria me invadia. Ao finalizar daquela música, pedi a vez ao mestre de cerimônias pra que eu falasse algumas palavras.

Eu sabia! Eu jamais conseguiria falar. Um gaguejo tomara conta de meu discurso, tomando qualquer possibilidade de parar o choro. Desci as escadas, e fui pegar aquela criança… Desajeitada, ela pegou o microfone, e proferiu as palavras mais lindas que eu já ouvi.

” Talvez, todos nós vejamos o mundo de maneiras diferentes. Eu tenho olhos azuis, e posso ver as coisas azuis. Papai diz que eu sou maluca, mas todas as vezes em que eu vejo alguma coisa ficando azul, eu sei que aquilo é verdadeiro. Na hora que a moça caiu, esbarrando no piano, eu ri. Mas de repente meus pais começaram a me abraçar e cantar uma letra muito bonita em minha orelhinha. Não sabia se eles eram escritores de músicas, mas aquilo ali, aquele monte de instrumentos tocando juntos, fizeram pela primeira vez, meus pais ficarem azuis ao falarem eu te amo um pro outro. Meu papai falou a verdade pra mamãe. E eu queria que essa música continuasse assim, até que eu finalmente pudesse dar um abraço em meus amiguinhos e dizer eu te amo, ficando azulzinha.”

Um entusiasmo tomou conta do salão. E eu só posso perguntar, sou azul pra você?

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